Eu realmente não tenho vergonha na cara. Passei o mês de setembro todo sem postar nada. Mas desta vez não foi a falta de tempo: mudei de emprego. Estou numa empresa onde trabalho de terça a sexta, seis horas por dia e ganho o equivalente à duas vezes a mensalidade de medicina na Ulbra. Com tanto tempo livre, resolvi tirar férias da web. Tá bom, é mentira. Não escrevi nada porque não tive tempo. Sim, a desculpa é velha, é esfarrapada, mas fazer o que? Ainda trabalho de segunda a sábado, às vezes de domingo a sábado, de nove a doze horas por dia e o que eu ganho mal dá para financiar um fusca. Em outras palavras, me sujeito a um sistema imundo, ou capitalista, temporariamente. Mas isso é só até meu cérebro se reorganizar; às vezes "é necessário dar um passo para trás para dar dois passos para frente". No entanto, morro de medo de me tornar um personagem de Sam Mendes: me acomodar com a vida e deixar de acreditar que os sonhos podem se tornar reais.
Mas agora deixando de lado o momento drama da minha vida, hoje eu assisti a Marley & Me. Um dvd emprestado, claro; nunca que eu ia gastar R$4,50 em um filme de cachorro. Menos ainda se tiver o Owen Wilson no elenco. No entanto, todos os comentários que chegaram aos meus ouvidos era de que o filme é surpreendentemente bom. Well. Não vou dizer que eu gostei, nem vou dizer que eu não gostei. Apenas não tive expectativas, portanto não tive decepções. É uma história aguada, no estilo comédia americana, sobre um cachorro muito, mas muito atentado, que desperta o melhor das pessoas. Fora o cachorro atentado, não enxerguei mais nada da sinopse no filme. O que vale mesmo são as frases finais, quando o Marley morre. São palavras piegas, porém puramente verdadeiras. Mas nem chorei. Tá bom, é mentira. Chorei. E ah! Não venham me dizer que estraguei o final do filme porque todo mundo sabe que o maldito cachorro morre!
Como o filme de hoje não rendeu, vou estender a conversa falando sobre o filme que vi na semana passada: Uma Vida Iluminada. Simplesmente brilhante! Ou, se me permitem o trocadilho, iluminado! A história é sobre Jonathan Safran Foer. Nem precisa dizer que é judeu...apenas acrescento que é norte-americano. Esse tal de Jonathan de fato existe e escreveu um livro "Tudo se Ilumina", no qual foi inspirado o filme. Não é uma história autobiográfica. Mas ouso dizer, mesmo sem ter lido o livro, que certamente é um pouco autobiográfico sim; mesmo que simbólico, em um nível mais complexo de raciocínio.
Jonathan, interpretado pelo Froddo, que aliás está ótimo, além de judeu, tem uma mania muito, uhm, peculiar: colecionar tudo o que vê e que o lembra uma situação ou alguém. Colecionar selos, moedas é normal. Bem na verdade é coisa para quem não tem o que fazer, porém é aceitável. Entretanto Jonathan coleciona dentaduras, punhadinhos de terra, pedaços de comida e outros artigos imprevisíveis para uma coleção. Antes de sua avó morrer, ela lhe dá uma foto de seu avô com uma mulher ucraniana que salvou sua vida durante o nazismo. Ele decide então conhecê-la e vai para a Ucrânia, com a ajuda de Alex Perchov e seu avô. O negócio dos Perchov é justamente ajudar judeus a encontrarem seus antepassados, apesar de acharem que judeus não servem para nada, a não ser para incomodar. E os três saem para a busca acompanhados da cadela demente Sammy Davis Jr. Jr. E a história vai sendo narrada por Alex, com seu inglês extremente precário (Jonathan vira Jonfen), deixando a coisa toda mais divertida. Além do avô, que rouba alguns momentos com a sua estranha raiva de judeus, promovendo a dúvida revelada ao final do filme: seria ele nazista ou mesmo um judeu?
A paisagem do filme é simplesmente exuberante. Campos verdes, plantações de girassóis. Nunca consegui plantar nem um girasol que chega a dar raiva de ver uma plantação inteira... Anyway, eles seguem viagem procurando uma cidade que nem sabem direito o nome, e muito menos onde fica. Menção à cena da batata: Jonathan também é vegetariano. Ele só tinha uma batata para comer, e ela ainda cai no chão. Identifiquei-me. E descobri que vegetarianos são discriminados no mundo todo. Se bem que eu já desconfiava disso...
Ao fim, encontram uma velhinha, que conhecia a garota da foto e que os leva ao tal do lugar. Uma velhinha completamente alienada do tempo e com uma coleção ainda maior que a do Jonathan. E assim se desenrola o fim da história, ao mesmo tempo dedusível e inesperado.
Falando assim, Uma Vida Iluminada parece um filme que já vimos antes, com uma historinha emocionante, que fala de judeus pobrezinhos que sofreram com o nazismo. Bem pelo contrário: é um filme de uma estranheza meticulosa, que mistura o tempo presente com imaginação e com lembranças do passado. E justamente essa bizarrice ímpar que me fez adorá-lo! Simplesmente a minha cara. Tanto que chega a dar uma invejinha de não ter tido a oportunidade de dirigi-lo. Além disso, é o tipo do filme que, ao terminar, ficamos refletindo sobre ele. Mesmo que não se chegue a conclusão nenhuma, dá um prazer indescritível tentar deduzir e interpretar suas metáforas.
Bem, acho que por hoje está bom. Na verdade poderia estar melhor. Aliás, sempre pode estar melhor, mas já isso é outro assunto. Até a próxima.
domingo, 4 de outubro de 2009
domingo, 9 de agosto de 2009
Um filme para poucos
Ir ao aeroporto para ver um filme é sempre uma coisa divertida. É claro que melhor seria se eu fosse para pegar um avião e sair de férias, mas, por hora, o cinema já me satisfaz. E se der tempo para desfrutar de um cafezinho com um croissant logo em seguida, enquanto se abana para os aviões que decolam, difícil de achar coisa melhor. E o bom é que o aeroporto sempre passa filmes bacanas, que nenhum outro cinema quis mais passar. É o caso de "Entre Os Muros da Escola", de Laurent Cantet. É o caso, também, do filme de que a cada 10 pessoas que vão vê-lo (se é que chega a tanto), umas 7 sobram ao final da sessão. Mas não as culpo. De fato, é um filme complicado de ser considerado como entretenimento.
O filme é um documentário sobre a rotina de escola pública na França. A história, que não chega a ser uma história, se baseia no dia-a-dia de François, um professor de francês. François é professor na vida real e escreveu um livro relatando suas experiências, que acabou inspirando o filme. O filme aborda diferentes situações e relações entre alunos e professores. Realações tais, que a princípio eram para envolver somente assuntos relacionados às atividades escolares, acabam se desviando e misturando a vida que transcede os muros da escola, construindo vínculos mais íntimos e fortes.
Todos os professores eram franceses. Já os alunos...um marroquino, um chines, um antilhano, outro africano, outra já não me lembro de onde. Esse é outro ponto forte do filme: os costumes culturais que divergem com a opinião dos professores, e mesmo entre os próprios alunos, criando situações de inveja, intrigas. Por que o chinês é mais inteligente e mais bem tratado que os outros, por exemplo? Mesmo assim, poucas vezes na vida vi algo tão imparcial: a razão nunca tende para um dos lados por completo; uma vez ela é do professor, outra do aluno. E cada um se sente incompreendido com a sua parte.
E todas as situações, a avaliação dos professores, os trabalhos, os conselhos de classe me remeteram muito aos meus tempos de escola pública aqui no Brasil mesmo. Uma escola daqui e outra no primeiro mundo não são tão diferentes no final das contas. Parece que somos todos seres humanos em qualquer parte do mundo. E as escolas também.
P.S. Saudade deste blog!!!!
O filme é um documentário sobre a rotina de escola pública na França. A história, que não chega a ser uma história, se baseia no dia-a-dia de François, um professor de francês. François é professor na vida real e escreveu um livro relatando suas experiências, que acabou inspirando o filme. O filme aborda diferentes situações e relações entre alunos e professores. Realações tais, que a princípio eram para envolver somente assuntos relacionados às atividades escolares, acabam se desviando e misturando a vida que transcede os muros da escola, construindo vínculos mais íntimos e fortes.
Todos os professores eram franceses. Já os alunos...um marroquino, um chines, um antilhano, outro africano, outra já não me lembro de onde. Esse é outro ponto forte do filme: os costumes culturais que divergem com a opinião dos professores, e mesmo entre os próprios alunos, criando situações de inveja, intrigas. Por que o chinês é mais inteligente e mais bem tratado que os outros, por exemplo? Mesmo assim, poucas vezes na vida vi algo tão imparcial: a razão nunca tende para um dos lados por completo; uma vez ela é do professor, outra do aluno. E cada um se sente incompreendido com a sua parte.
E todas as situações, a avaliação dos professores, os trabalhos, os conselhos de classe me remeteram muito aos meus tempos de escola pública aqui no Brasil mesmo. Uma escola daqui e outra no primeiro mundo não são tão diferentes no final das contas. Parece que somos todos seres humanos em qualquer parte do mundo. E as escolas também.
P.S. Saudade deste blog!!!!
domingo, 19 de julho de 2009
Just keep swimming
Coisa boa chegar em casa morta de cansaço de tanto trabalhar, tomar um banho e se atirar na cama. Não que a sensação de cansaço seja agradável, mas é que descansar é um dos maiores deleites do final de semana. E adoro, depois de uma semana de labuta, retornar ao lar-doce-lar, tomar uma ducha quentinha e apreciar uma televisão, comendo uma porcaria gostasa, em baixo das cobertas. Na verdade, apreciar não é bem a palavra quando me refiro a televisão... Para quem possui um mínimo de intelecto e gosta de relaxar com um bom programa (de TV...) sábado à noite, não tem vez. A Tv aberta, nem preciso comentar. Quando não é o Big Brother, são suas variações, como a Fazenda e derivados. A novela das 8 é a mesma há 20 anos, e ninguém nunca se deu conta. Além de outros programas de humor que ofendem a minha capacidade de rir das coisas. Mas pelo menos é de "graça". Acho que me irrito mais com a Tv a cabo, que tem trocentos mil canais que não passam nada que preste na hora que a gente esta vendo. Além de repetirem o mesmo filme o mês inteiro. E não sei por que a gente ainda paga por essas coisas. Porém, às vezes, a gente dá sorte: depois de uma meia-hora zapeando com o controle remoto, até que se acha alguma coisa boa. Nem que seja alguma coisa que a gente já tenha visto há um tempo a trás. Foi o que me aconteceu na semana passada: quando já estava desistindo de procurar algo, ia me render ao show do Roberto Carlos 50 anos, eis que eu achei o Nemo! Estava passando Procurando Nemo no canal da Disney. Um desenho animado que eu já vi umas 3 vezes acabou salvando o meu resto de sábado.
Procurando Nemo é uma das coisas mais fofas que já foram feitas. A historinha, todo mundo já deve conhecer: a aventura de um peixe-palhaço em busca de seu filho perdido (na verdade pescado), Nemo. Adoro desenhos animados! Até choro com alguns. Mas procurar o Nemo é sempre divertido e emocionante! Todos os personagens são especiais: os tubarões vegetarianos, a peixinha esquecida, as tartarugas (meio maconheiras), os peixinhos birutas do aquário. Foram todos muito bem estudados e feitos com perfeição. Além de serem dublados por muita genete bacana e conhecida, mas que a minha ignorância só permitiu reconhecer as vozes do Geoffrey Rush e da Ellen DeGeneres, como Nigel e Dori. Lembro-me bem que, na época em que fez sucesso, foi uma mania mundial. Quer dizer, mundial eu não sei ao certo, mas ao menos em Porto Alegre. Mas se é da Disney, deve ter sido mundial. Muitas criancinhas queriam libertar seus peixinhos de aquário (eu nunca vou ter um aquário!), e não havia quem não soubesse falar baleiês.
E além da história, o que mais me toca é o fato dela se passar no fundo do oceano. Desde criancinha, sempre fui fascinada pela vida marinha! Sempre achei que no mar é onde tem os animais mais estranhos, mais coloridos, mais interessantes de todos. E mesmo sendo só uma animação gráfica de computador, fico toda arrepiada de ver as tartarugas nadando juntas com os filhotes, ou a baleia, aquele monstro enorme, cantando e nadando tão delicadamente. E a arraia sumindo na imensidão azul... Tudo isso pode parecer bobo, mas o que eu sinto em ver a vida acontecendo é indescritível. É um amor sincero pela ordem natural das coisas. Chega a ser terapêutico. Juro que se eu não precisasse comprar comida para continuar vivendo, eu tirava biologia marinha. Quem sabe um dia, quando eu ganhar dinheiro sem fazer nada, eu tenha tenpo para ir ver uma baleia nadando em alto-mar, nadar com golfinhos e tirar fotos dos corais? Até lá, eu vou continuar a nadar.
Procurando Nemo é uma das coisas mais fofas que já foram feitas. A historinha, todo mundo já deve conhecer: a aventura de um peixe-palhaço em busca de seu filho perdido (na verdade pescado), Nemo. Adoro desenhos animados! Até choro com alguns. Mas procurar o Nemo é sempre divertido e emocionante! Todos os personagens são especiais: os tubarões vegetarianos, a peixinha esquecida, as tartarugas (meio maconheiras), os peixinhos birutas do aquário. Foram todos muito bem estudados e feitos com perfeição. Além de serem dublados por muita genete bacana e conhecida, mas que a minha ignorância só permitiu reconhecer as vozes do Geoffrey Rush e da Ellen DeGeneres, como Nigel e Dori. Lembro-me bem que, na época em que fez sucesso, foi uma mania mundial. Quer dizer, mundial eu não sei ao certo, mas ao menos em Porto Alegre. Mas se é da Disney, deve ter sido mundial. Muitas criancinhas queriam libertar seus peixinhos de aquário (eu nunca vou ter um aquário!), e não havia quem não soubesse falar baleiês.
E além da história, o que mais me toca é o fato dela se passar no fundo do oceano. Desde criancinha, sempre fui fascinada pela vida marinha! Sempre achei que no mar é onde tem os animais mais estranhos, mais coloridos, mais interessantes de todos. E mesmo sendo só uma animação gráfica de computador, fico toda arrepiada de ver as tartarugas nadando juntas com os filhotes, ou a baleia, aquele monstro enorme, cantando e nadando tão delicadamente. E a arraia sumindo na imensidão azul... Tudo isso pode parecer bobo, mas o que eu sinto em ver a vida acontecendo é indescritível. É um amor sincero pela ordem natural das coisas. Chega a ser terapêutico. Juro que se eu não precisasse comprar comida para continuar vivendo, eu tirava biologia marinha. Quem sabe um dia, quando eu ganhar dinheiro sem fazer nada, eu tenha tenpo para ir ver uma baleia nadando em alto-mar, nadar com golfinhos e tirar fotos dos corais? Até lá, eu vou continuar a nadar.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Parênteses.
Keep moonwalking
Antes que o mundo já esqueça da morte do Michael, gostaria de deixar registrado aqui meu sentimento de comoção com o ocorrido. Impossível não sentir uma pontinha de tristeza com a notícia "The King is dead". Mesmo aqueles que não gostavam de suas músicas ou achavam seus clipes cafonas, um dia, dançaram Thriller e tentaram fazer o moonwalker no meio da sala, quando ninguém estava olhando. Milhões de pessoas com os olhos fixos em seus pés: "como é que ele faz isso?". E como ele fazia aquilo... Sempre cresci ouvindo a mãe falar que ela era da época em que o Michael Jackson era negro. E se antes ele já deixava a saudade do Michael preto, agora deixa também a do branco.
Suas músicas e seus passos de dança fizeram parte da vida de muitas pessoas: animou muitas festinhas e embalou muitos namoros. Mesmo não sendo um amigo íntimo, ele fez parte das lembranças pessoais de muita gente. É por isso que sentiremos a sua falta.
Felizmente, não houve quem não o reconhecesse por seu imenso talento e o admirasse por ter sobrevivido à sua própria infância. Mas também não faltou quem o discriminasse; seja pela degradação da própria imagem ou por seus famosos escândalos. Porque a humanidade é assim mesmo: em vida, não pordoa ninguém. Mas a morte é milagreira e apaga com todo o passado ruim de qualquer pessoa. E aos que que ficam, ela deixa somente a melhor imagem daquele que partiu. Porque a humanidade é assim mesmo: diante da morte, a tudo perdoa.
Michael, que você encontre a paz. Sinceramente.
Suas músicas e seus passos de dança fizeram parte da vida de muitas pessoas: animou muitas festinhas e embalou muitos namoros. Mesmo não sendo um amigo íntimo, ele fez parte das lembranças pessoais de muita gente. É por isso que sentiremos a sua falta.
Felizmente, não houve quem não o reconhecesse por seu imenso talento e o admirasse por ter sobrevivido à sua própria infância. Mas também não faltou quem o discriminasse; seja pela degradação da própria imagem ou por seus famosos escândalos. Porque a humanidade é assim mesmo: em vida, não pordoa ninguém. Mas a morte é milagreira e apaga com todo o passado ruim de qualquer pessoa. E aos que que ficam, ela deixa somente a melhor imagem daquele que partiu. Porque a humanidade é assim mesmo: diante da morte, a tudo perdoa.
Michael, que você encontre a paz. Sinceramente.
sexta-feira, 19 de junho de 2009
A humanidade está cega?
E se alguém na sua cidade ficasse cego de repente? E se toda a cidade começasse a sofrer de uma estranha doença em que todos ficam cegos? O que você faria? Seria solidário com os que estão sofrendo com a tal moléstia ou correria gritando para fugir da praga e se salvar? E se você for pego? E se você um dia abrir os olhos e for da escuridão extrema para a claridade extrema a ponto de nada ver? Qual a pior cegueira? A que a apaga todas as luzes, ou a que as acende, todas, ao mesmo tempo? E se as pessoas, tão apavoradas, tão inferiores, isolassem os infectados em um sanatório abandonado? Qual o melhor lado? O de fora? O de dentro? Conviver com o medo? Sobreviver com a conformidade? E se a pequena quarentena se tornasse uma sociedade independente, movida a instintos primitivos, onde os covardes, atrás de uma pistola, se autodenominassem rei? E se o soberano covarde puder matar apenas uma pessoa? Seria muito? Seria insignificante? Você resistiria? Se deixaria dominar? Ou você é o covarde? Afinal, qual a diferença do rei e dos cidadãos do reino, se todos são seres humanos, isolados e cegos? Para que criar a guerra se poderiam se unir? E você trocaria seu relógio de ouro por comida? De que vale o ouro em um mundo a parte, se não pode gastá-lo? E a sua dignidade? Você a trocaria? De que vale a sua dignidade se você está morrendo de fome? E ela um dia valeu alguma coisa, mesmo você estando de barriga cheia? E a sua esposa? Continuaria sendo sua esposa? Você ainda a amaria? Você saberia diferenciar as sensações alegres das tristes? E se no meio da cegueira, alguém pudesse ver? Quem você gostaria de ser? Um inválido que depende desse alguém? Um alguém que se torna escravo dos inválidos? E se o mundo lá fora sumisse de repente, e o sonho de liberdade viesse a tona, e você pudesse voltar para casa? Iria "tateando" o caminho sozinho? Levaria seus amigos? E se na rua você encontrar um grupo de cães devorando um morto enquanto um único cão senta-se ao seu lado para lamber seu rosto? Aqueles que devoram o defunto são cachorros maus? Este outro é bom apenas porque procurava o que comer no lixo? Você consegue comparar a humanidade a um desses cães? As pessoas regrediram, ou os animais evoluíram? Nós que agimos como animais, ou os animais que se humanizaram? É possível julgar alguém depois de tudo que você viveu? Tudo depende de uma escolha? E qual seria o novo conceito de belo? Faria diferença em ser loiro ou moreno? Olhos castanhos ou azuis? E se a beleza agora dependesse daquilo que você é? Você seria feio ou bonito? Você saberia diferenciar os feios dos belos apenas pela alma? Pela índole? Você realmente afirmaria com toda a certeza de que uma pessoa é bonita só por causa de uma atitude de amizade? E se você de repente voltasse a ver? Ela ainda seria bonita? O coração enxerga melhor que os olhos? Afinal, de que cegueira estamos falando?
E se a sua missão terminasse, e sua vida perdesse o sentido? Você se sentiria cego?
Ensaio Sobre A Cegueira de Fernando Meirelles.
E se a sua missão terminasse, e sua vida perdesse o sentido? Você se sentiria cego?
Ensaio Sobre A Cegueira de Fernando Meirelles.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Luto.
Hoje não vim aqui para falar de cinema. Já estou devendo uma boa postagem, mas, sem querer desprezá-los, não tive paciência para escrever. Há tempos, quero dizer algo sobre o Gran Torino, do Clint. Porém, ir ao cinema consciste de um ritual que vai desde a companhia até o que você comeu durante o filme. A pipoca esfriou rápido, mas a companhia estava boa. Juro que não foi a pipoca que um dia me fez chorar. Resumindo, é díficil lembrar certos acontecimentos (mesmo que agradáveis). E droga, eu tinha um ótimo texto! Mas, por enquanto, não vim para falar de cinema. Vim para falar da vida real, que por vezes se assemelha a arte nos seus pontos mais dramáticos.
Ele: -Então tu disse que tinha algumas coisas pra me dizer...
Ela: -Sim..
Ele: -Eu também. Fala tu primeiro.
Ela: -Não, fala tu.
Ele: -Não, fala tu primeiro. Faço questão.
Fazia 3 semanas que não se viam. Apenas trocaram algumas conversas por telefone, sem te amo e sem saudades. Ela disse que ele andava estranho.
Ela: -Estou preocupada.
Ele: -Eu realmente tenho andado estranho. Estou passando por um momento difícil, numa espécie de depressão.
Como ele podia não sentir vontade de abracá-la e beijá-la loucamente entre um te adoro e um senti muito sua falta? Ela, que era tão digna de tal ato, ficou esperando seus carinhos em vão.
Ele: -Estou passando por problemas financeiros, talvez tranque a faculdade, não consigo emprego. Preciso passar por isso sozinho.
Ela: -Estou passando por problemas financeiros, não posso pagar uma faculdade, não consigo emprego. Preciso muito de alguém agora.
Como estavam passando por situações tão parecidas e pensavam tão diferente? Como podiam ter reações tão opostas? Ele entrava em depressão, e ela sempre inventava um motivo para levantar da cama. Ele dizia que ela deveria ser forte, que ela não sofria tanto quanto ele. Levianas palavras a dele: jamais diga que você sofre mais; sofrimento não se mede. Sofrimento se sofre.
Ele: -Eu não queria jamais te magoar. E sei que já magoei...
Ela ouviu isso sob as luzes fortes do shopping e olhares curiosos tentando saber por que segurava o choro.
Ela: -Estou passando pelo pior momento da minha vida. Preciso do teu apoio.
Ele: -Tu não vai gostar de ficar comigo. Não posso te ajudar.
Ao fundo, tocava Ma Vie, de Alain Barriere, Hymne a L'amour, de Piaf, Viens Ma Brune, do Salvatore Adamo... Maldito centenário da França no Brasil! Maldição ter nascido no Brasil! Eram suas músicas preferidas. E agora, sempre que as ouve, ela põe a mão na boca, atravessa a garganda, arranca seu coração fora e o atira, ainda batendo, contra a parede na tentativa de fazer parar a dor. Mas não importa se está dentro ou fora do peito, o desgraçado insiste em doer.
Ela: -Mas a vida é assim mesmo: venturas seguidas de desventuras. E não podemos prever quando, como ou quanto tempo cada estágio irá durar. Se toda vez que algo de mal lhe acontecer, tu renegar a companhia das pessoas queridas, então tu irá magoar todos que gostam de ti. Para sempre.
Assim disse ela, agarrada a um fiapo de esperança; o qual ele arrancou cruelmente:
Ele: -Eu sei. Mas não posso mudar. Não é nada contigo; apenas não consigo levar um relacionamento adiante. Acho que quero passar por isso sozinho.
Num raciocínio frio, as pessoas podem afirmar: "não se pode obrigar ninguém a gostar de alguém." Mas quem a conhece afirmaria com mais êxito: "como pode não gostar dela? Tão bonita! Tão interessante!". Só que ser bonita e interessante parece não bastar.
Ela: -Essa é a tua decisão final?
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça.
Ela: -De todos que me largaram, tu foi o que mais me machucou: os outros não passaram de orgulho e amor-próprio. Mas tu, era sentimento...eu te odeio!, garoto infantil, garoto mimado!, pensou ela, em uma fração de segundos, em dizer a ele. No entanto, tudo que conseguiu fazer foi dar as costas, ir andando, deitar do banco de trás do carro e chorar. Chorou como uma criança chora quando o mar leva embora seu castelo de areia. Droga! E o inverno que passariam juntos no edredom? E o presente que ela havia comprado para o dia dos namorados?
Como conseguimos ser fortes com a morte, com a guerra, com a miséria que nos cerca; e como uma história de amor banal quase pode nos destruir? Ou ainda, será que ele tinha noção da mudança irreversível que causara na vida dela? Ela não consegue mais ouvir U2, nem ver um filme do Woody Allen, nem ver a cara da Scarlett Johansson. Tudo lembra ele. Tudo dói. E todos os lugares sem ele parecem não ser mais os mesmos lugares.
Ela, que na semana passada, rezara para que tudo se ajeitasse em sua vida, agora, não acredita mais em Deus; por mil diabos, Ele a viu sofrer e não fez nada. Ser vegetariana pra que? Algum dia as vacas e as galinhas se reuniram para lhe fazer algo de bom? E as pessoas que lhe dizem: "você é muito jovem. Não há quem não tenha sofrido por amor". Oras! Não há insulto pior! Só porque o resto das pessoas já sofreram por amor, ela também tem que sofrer? Desde quando isso é uma lei? Desde quando pensar na dor dos outros diminui a nossa própria dor? São todas pessoas mesquinhas que não superaram suas próprias desilusões e se consolam ao ver a decadência dos outros. E o pior: não faz sarar a ferida. Ela chora enquanto ele vibra com a goleada do Grêmio. Ele se diverte com os amigos enquanto ela chora. Sim, ele não merece suas lágrimas. E ela? Merecia sua rejeição? A vida é injusta: ele dá continuação a sua vida enquanto a dela não faz mais sentido.
Mas apesar de tudo, ela pensa que gostar de alguém não é vergonha. Também não é vergonha amar e não ser amada. Mas ver que as mesmas fotos, que ela ainda guarda com carinho, ele já as pôs na lixeira, fácil assim, faz parecer que amar sem ser correspondida seja a coisa mais humilhante do Universo. Mas era "ele quem entrava em depressão, e ela quem inventava um motivo para levantar da cama...".
Se alguém aqui já sofreu por amor, por favor, jogue a primeira pedra. Dói menos.
Quanto ao Gran Torino, limito-me a dizer que é um bom filme. Quem quiser, que o veja.
Ele: -Então tu disse que tinha algumas coisas pra me dizer...
Ela: -Sim..
Ele: -Eu também. Fala tu primeiro.
Ela: -Não, fala tu.
Ele: -Não, fala tu primeiro. Faço questão.
Fazia 3 semanas que não se viam. Apenas trocaram algumas conversas por telefone, sem te amo e sem saudades. Ela disse que ele andava estranho.
Ela: -Estou preocupada.
Ele: -Eu realmente tenho andado estranho. Estou passando por um momento difícil, numa espécie de depressão.
Como ele podia não sentir vontade de abracá-la e beijá-la loucamente entre um te adoro e um senti muito sua falta? Ela, que era tão digna de tal ato, ficou esperando seus carinhos em vão.
Ele: -Estou passando por problemas financeiros, talvez tranque a faculdade, não consigo emprego. Preciso passar por isso sozinho.
Ela: -Estou passando por problemas financeiros, não posso pagar uma faculdade, não consigo emprego. Preciso muito de alguém agora.
Como estavam passando por situações tão parecidas e pensavam tão diferente? Como podiam ter reações tão opostas? Ele entrava em depressão, e ela sempre inventava um motivo para levantar da cama. Ele dizia que ela deveria ser forte, que ela não sofria tanto quanto ele. Levianas palavras a dele: jamais diga que você sofre mais; sofrimento não se mede. Sofrimento se sofre.
Ele: -Eu não queria jamais te magoar. E sei que já magoei...
Ela ouviu isso sob as luzes fortes do shopping e olhares curiosos tentando saber por que segurava o choro.
Ela: -Estou passando pelo pior momento da minha vida. Preciso do teu apoio.
Ele: -Tu não vai gostar de ficar comigo. Não posso te ajudar.
Ao fundo, tocava Ma Vie, de Alain Barriere, Hymne a L'amour, de Piaf, Viens Ma Brune, do Salvatore Adamo... Maldito centenário da França no Brasil! Maldição ter nascido no Brasil! Eram suas músicas preferidas. E agora, sempre que as ouve, ela põe a mão na boca, atravessa a garganda, arranca seu coração fora e o atira, ainda batendo, contra a parede na tentativa de fazer parar a dor. Mas não importa se está dentro ou fora do peito, o desgraçado insiste em doer.
Ela: -Mas a vida é assim mesmo: venturas seguidas de desventuras. E não podemos prever quando, como ou quanto tempo cada estágio irá durar. Se toda vez que algo de mal lhe acontecer, tu renegar a companhia das pessoas queridas, então tu irá magoar todos que gostam de ti. Para sempre.
Assim disse ela, agarrada a um fiapo de esperança; o qual ele arrancou cruelmente:
Ele: -Eu sei. Mas não posso mudar. Não é nada contigo; apenas não consigo levar um relacionamento adiante. Acho que quero passar por isso sozinho.
Num raciocínio frio, as pessoas podem afirmar: "não se pode obrigar ninguém a gostar de alguém." Mas quem a conhece afirmaria com mais êxito: "como pode não gostar dela? Tão bonita! Tão interessante!". Só que ser bonita e interessante parece não bastar.
Ela: -Essa é a tua decisão final?
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça.
Ela: -De todos que me largaram, tu foi o que mais me machucou: os outros não passaram de orgulho e amor-próprio. Mas tu, era sentimento...eu te odeio!, garoto infantil, garoto mimado!, pensou ela, em uma fração de segundos, em dizer a ele. No entanto, tudo que conseguiu fazer foi dar as costas, ir andando, deitar do banco de trás do carro e chorar. Chorou como uma criança chora quando o mar leva embora seu castelo de areia. Droga! E o inverno que passariam juntos no edredom? E o presente que ela havia comprado para o dia dos namorados?
Como conseguimos ser fortes com a morte, com a guerra, com a miséria que nos cerca; e como uma história de amor banal quase pode nos destruir? Ou ainda, será que ele tinha noção da mudança irreversível que causara na vida dela? Ela não consegue mais ouvir U2, nem ver um filme do Woody Allen, nem ver a cara da Scarlett Johansson. Tudo lembra ele. Tudo dói. E todos os lugares sem ele parecem não ser mais os mesmos lugares.
Ela, que na semana passada, rezara para que tudo se ajeitasse em sua vida, agora, não acredita mais em Deus; por mil diabos, Ele a viu sofrer e não fez nada. Ser vegetariana pra que? Algum dia as vacas e as galinhas se reuniram para lhe fazer algo de bom? E as pessoas que lhe dizem: "você é muito jovem. Não há quem não tenha sofrido por amor". Oras! Não há insulto pior! Só porque o resto das pessoas já sofreram por amor, ela também tem que sofrer? Desde quando isso é uma lei? Desde quando pensar na dor dos outros diminui a nossa própria dor? São todas pessoas mesquinhas que não superaram suas próprias desilusões e se consolam ao ver a decadência dos outros. E o pior: não faz sarar a ferida. Ela chora enquanto ele vibra com a goleada do Grêmio. Ele se diverte com os amigos enquanto ela chora. Sim, ele não merece suas lágrimas. E ela? Merecia sua rejeição? A vida é injusta: ele dá continuação a sua vida enquanto a dela não faz mais sentido.
Mas apesar de tudo, ela pensa que gostar de alguém não é vergonha. Também não é vergonha amar e não ser amada. Mas ver que as mesmas fotos, que ela ainda guarda com carinho, ele já as pôs na lixeira, fácil assim, faz parecer que amar sem ser correspondida seja a coisa mais humilhante do Universo. Mas era "ele quem entrava em depressão, e ela quem inventava um motivo para levantar da cama...".
Se alguém aqui já sofreu por amor, por favor, jogue a primeira pedra. Dói menos.
Quanto ao Gran Torino, limito-me a dizer que é um bom filme. Quem quiser, que o veja.
Postado por
Vanessa Olszewski
às
Quinta-feira, Junho 04, 2009
5
comentários
Links para esta postagem
Assinar:
Postagens (Atom)


